09 Aug 2017

“O nosso tema de casa está feito”

 

Nesta edição do Abinforma conversamos com o gerente de Tecnologia da Informação da Via Marte, Ivair Kautzman. A empresa, sediada em Nova Hartz/RS, possui três plantas industriais, duas em Nova Hartz e uma na cidade de Sapiranga/RS. Com uma produção média de 30 mil pares diários, a indústria gaúcha tem um grande número de pedidos diários, entre 1,2 mil e 1,8 mil. O fato fez com que a empresa, em meados dos anos 2000, procurasse soluções no campo da automação, para uma melhor organização interna e relacionamento com fornecedores e clientes. Na entrevista, o gerente de TI da empresa nos fala como foi o processo e como ele tem auxiliado no desenvolvimento da produtividade.
 
Abinforma - Qual a importância desse controle interno por meio da automação da logística?
Ivair Kautzman -
 A adoção da tecnologia, que tem como premissa a serialização, é fundamental para melhorar a performance da produção, especialmente no quesito redução de custos, condição essencial para a competitividade. Desde que adotamos o sistema, em 2003, reduzimos os nossos erros de picking (separação de mercadorias) a quase zero, diminuímos o retrabalho, aceleramos o processo produtivo e conseguimos mitigar a falsificação e a pirataria pela oportunidade de rastreabilidade total da carga por meio do padrão global de identificação de mercadoria da GS1.

Abinforma – Antes da adoção da automação, os erros eram correntes?
Kautzman - 
Sim, tínhamos um índice de erros de registros das caixas entre 3,5% e 4,5% do total, um número alto e que prejudica a produtividade, pois quando uma mercadoria é entregue errado, o problema na realidade é dobrado, pois envolve ida e volta da mesma. O quadro era agravado pela configuração dos clientes da Via Marte, que solicitam um maior número de lotes com volumes menores.

Abinforma – Quanto da produção da Via Marte abastece o mercado interno?
Kautzman -
 Hoje, 95% da produção é voltada para o mercado interno, sendo que estamos presentes em mais de 20 mil pontos de venda no Brasil.

Abinforma – A Via Marte consegue mensurar, em termos financeiros, o quanto é economizado com a automação da logística?
Kautzman - 
Estimamos que algo em torno de R$ 500 mil por ano com redução de custos.

Abinforma - Qual foi o investimento total realizado?
Kautzman -
 Hoje contamos com o nosso próprio software de manufatura, somos proprietários. Para automatizar a logística, no entanto, investimos em scanners (coletores de dados) e computadores industriais, algo em torno de R$ 60 mil. Para empresas menores, o investimento pode ser muito menor, proporcional ao tamanho do negócio, e os ganhos igualmente importantes.

Abinforma - Você comenta sempre que a logística é uma questão de ganho em escala... Por quê?
Kautzman - 
Sim, a logística não pode ser encarada como questão de concorrência. A concorrência entre as empresas deve se dar no produto, em design, em estilo, em soluções inovadoras etc., não em logística. Na logística, a lógica é simples, quanto mais empresas utilizarem o padrão, melhor será a competitividade da cadeia, tanto pelo melhor controle interno – lembrando que estoque é custo -, passando pela redução de gastos com mão de obra até a questão de segurança, com ampla rastreabilidade e, consequentemente, mitigação da pirataria, falsificação e sinistros sinistros em geral. Mas, independente das demais empresas não utilizarem, nós fizemos nosso tema de casa e estamos satisfeitos com os resultados para a organização interna.

Abicalçados – Quantos dos parceiros, fornecedores e clientes, da Via Marte, utilizam a automação logística?
Kautzman - 
Poucos. Infelizmente, falta entendimento da importância da questão para boa parte da cadeia. Hoje, poucos fornecedores utilizam o mecanismo, no entanto, respondem por cerca de 50% das compras. Das sete transportadoras que trabalham conosco, apenas duas utilizam.

Abicalçados - E os funcionários, como reagiram à automação?
Kautzman - 
Hoje, quando chegam os caminhões dos fornecedores que utilizam automação, os funcionários disputam entre eles para descarregar. É tudo muito mais fácil de controlar. O tempo foi otimizado tanto para descarregar como para carregar os caminhões, em torno de 1/3 em comparação com processos manuais. Os motoristas que vêm buscar mercadorias também preferem vir primeiro na Via Marte, pois aqui é mais organizado e eles sabem que não precisarão ficar esperando horas porque alguém perdeu uma caixa do embarque.

Abicalçados – Além do ganho interno, com redução de custos, a automação pode ser usada no relacionamento com o consumidor?
Kautzman - 
Sim, por meio do Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC), especialmente na logística reversa. Citamos o exemplo, se o consumidor precisa trocar uma mercadoria, precisa dar detalhes do produto, que muitas vezes são imprecisos, ou até enviar fotos. Aqui, se ele tiver o número da série conseguimos localizar facilmente todo o histórico do produto, da fabricação até a chegada no varejo. A automação também acaba por aumentar a fidelização e é uma ferramenta de marketing.

Abicalçados – Além de uma cultura de automação, o que falta para que o empresariado, de fato, passe a investir nessas ferramentas?
Kautzman - 
O empresariado não está enxergando o valor da automação para a competitividade. Além disso, ainda temos a falta de apoio do Governo, que poderia reduzir impostos de importação sobre produtos para a automação, incentivando a competitividade das empresas brasileiras. Hoje, uma multinacional com sede no Brasil, consegue comprar um produto de automação - scanners industriais ou computadores -  muito mais em conta do que a empresa genuinamente brasileira, que tem um imposto de importação altíssimo.

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